
Liturgia Dominical
XXIII Domingo do tempo comum
Discípulos.
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Pe. Valdenício Antonio da Silva
Na leitura do Evangelho de hoje podemos, figurativamente, dizer que uma palavra “salta do texto”, ou seja, se destaca. A palavra discípulo ocupa o centro da temática proposta por Lucas.
De forma simplificada, discípulo é aquele que está em processo de aprendizagem, por isso põe-se a seguir um mestre. Pensar a realidade do discipulado no contexto bíblico é relativamente fácil. O elemento fundamental da fé de Israel está expresso na oração do Shema: “Escuta Israel”. Ouvir, escutar com o objetivo de apreender. Para a Bíblia toda pessoa de fé é um discípulo, pois se relaciona com Deus que, primeiramente, nos fala. Deus fala a fim de se apresentar. E num sentido exato, só podemos conhecer Deus porque Ele se apresenta, e no processo do discipulado aprendemos a conhecê-Lo. A primeira leitura introduz a liturgia, nesta perspectiva.
O texto do livro da Sabedoria constata uma dificuldade para se conhecer Deus. Um diálogo entre o homem e Deus passa pelo desafio da natureza de cada um. Deus é imaterial e imanente; o homem é material e sujeito à condição histórica. Apresentando o texto de forma esquemática seu conteúdo nos parecerá mais claro.
Questionamento
Que homem conhece os desígnios de Deus?
Quem pode conhecer Sua Vontade?
Causa
Os pensamentos mortais são tímidos.
Os raciocínios falíveis.
O corpo pesa sobre a alma.
O corpo oprime a mente pensante.
Com muito custo conjeturamos o terrestre.
Com trabalho encontramos o que está em nossas mãos.
Questionamento
Quem conhecerá a Tua Vontade?
Solução
Dás Sabedoria enviando dos céus Teu Santo Espírito.
Somente assim, os homens aprenderam o que te agrada, e a Sabedoria os salvou.
Não basta ter diante de si a Palavra de Deus. É necessário conhecê-la.
Mas tal conhecimento só é alcançado quando Deus ensina. Não é o homem que compreende, mas Deus que lhe faz compreender. Um texto que nos ajuda a perceber esta realidade é o salmo 119,33-36:
“Ensina-me, Senhor, o caminho de teus estatutos, e o seguirei
pontualmente.
Ensina-me a cumprir tua vontade e a observá-la de coração.
Encaminha-me pela senda de teus mandamentos, porque a amo.
Inclina meu coração a teus preceitos e não ao lucro”.
Jesus, no Novo Testamento é a manifestação perfeita de Deus. A Palavra Divina que se personaliza. “Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,9). Portanto, em Jesus realiza-se a ação de ensinar, encaminhar e inclinar o coração humano para Deus.
Todo discipulado tem seu início em um ato de adesão. O evangelho apresenta as exigências próprias do caráter do discípulo quando ele faz a escolha de seguir JESUS.
Introdução
Grandes multidões o acompanhavam. Jesus voltou-se e disse-lhes: “Se alguém vem a mim e não odeia seu próprio pai e mãe, mulher, filho, irmão, irmã e até a própria vida não pode ser meu discípulo.”
Relação com o Mestre
“Quem não carrega sua cruz e não vem após mim, não pode ser meu discípulo.”
Primeira Parábola
“Quem de vós, com efeito, querendo construir uma torre, primeiro não se senta para calcular as despesas e ponderar se tem com que terminar? Não aconteça que, tendo colocado o alicerce e não sendo capaz de acabá-la, todos os que o virem comecem a caçoar dele, dizendo: “Esse homem começou a construir e não pode acabar!”
Segunda Parábola
“Ou ainda, qual o rei que, partindo para guerrear com outro rei, primeiro não se senta para examinar se, com dez mil homens, poderá confrontar-se com aquele que vem contra ele com vinte mil? Do contrário, enquanto o outro ainda está longe, envia uma embaixada para perguntar as condições de paz.”
Conclusão
“Igualmente, portanto, qualquer de vós, que não renunciar a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo.”
Partindo da introdução podemos perceber que o texto afirma o discipulado como um ato pessoal. Aquele que segue Jesus se distingue da multidão é “alguém”, não é massa. Torna-se um separado, “alguém” que estabelecerá com seu mestre um diálogo e será enviado para uma missão.
Jesus parece querer do discípulo o que Deus pediu de Abrão: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai.” (Gn 12,1). Jesus tal como Deus pede do discípulo um ato de ruptura. Estar só com Jesus! Eis o primeiro quesito para ser discípulo. Como se poderá ouvir o que o Mestre tem a ensinar em meio a um emaranhado de vozes? Tal como pede Deus Jesus o faz: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração.” (Dt 6,4). Entenda-se de “todo o coração” como sendo o centro de sua afetividade. Colocando o Senhor no centro de suas preocupações, sentimento, como razão primeira. De “todo coração”, sem partilhar com nada.
Pode-se ver na palavra “odiar” um reflexo do texto de Deuteronômio 33,9: “A Levi disse. Ele diz de seu pai e mãe: “nunca os vi.” Ele não reconhece mais seus irmãos e ignora seus filhos. Sim, eles observam a tua palavra e mantêm a tua aliança”. O texto faz referência ao que aconteceu com os Levitas após o fato da fabricação do bezerro de ouro. Entre serem fiéis aos laços familiares, preferiram ser fiéis à Aliança (Ex 32,25-29). Todos os valores, de acordo com a palavra de Jesus, comparados com Deus fenecem.
O pedido de renúncia que Deus faz a Abrão, um sábio de Israel, diz algo que pode ser aplicado aos discípulos de Jesus. “Sai”. Deus visa um bem para o vocacionado. Quando se faz um longo caminho, como será o caso dos discípulos que deverão seguir até a cruz, os valores vão se perdendo no percurso deste caminho. O cansaço, a distância, os problemas, todos os fatores de dificuldade podem nos fazer esquecer os bens deixados para traz, inclusive a família. “Pois o caminho acarreta três conseqüências: diminui a procriação, diminui o dinheiro e diminui o renome”. (Rashi) Jesus, de imediato, já exige a renúncia com o objetivo de focar todo o esforço do discípulo para sua finalidade: seguir seu Mestre até o fim.
As duas parábolas apontam para uma única necessidade. Quem aceitar o convite de Jesus deverá ter clara consciência, deverá conhecer todas as implicações da escolha. Tal como projeta o construtor e o rei, veja também se o discípulo será capaz de assumir o projeto. A grande dificuldade do projeto está no fato de que é o Mestre quem o elabora e não o discípulo.
Ao final do texto, Jesus reafirma, mais uma vez fala de renúncia e amplia a dimensão da renúncia: “renunciar a tudo o que possui”. Jesus caminha para a cruz em Jerusalém por causa de sua missão, ele não recua. Não recuem seus discípulos.
Oração: Deus de Abraão, de Issac e de Jacó. Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo. Em Ti está a fonte da vida. Nada posso te dar em retribuição por todo o bem que me dás. Tudo é Teu e o que recebi da Tua mão, isto mesmo te ofereço, minha vida. Amém.
Sabedoria 9,13-19; Filêmon 9b-10.12-17; Lucas 14,25-33.
25. Muito povo acompanhava Jesus. Voltando-se, disse-lhes:
26. Se alguém vem a mim e não odeia seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seus irmãos, suas irmãs e até a sua própria vida, não pode ser meu discípulo.
27. E quem não carrega a sua cruz e me segue, não pode ser meu discípulo.
28. Quem de vós, querendo fazer uma construção, antes não se senta para calcular os gastos que são necessários, a fim de ver se tem com que acabá-la?
29. Para que, depois que tiver lançado os alicerces e não puder acabá-la, todos os que o virem não comecem a zombar dele,
30. dizendo: Este homem principiou a edificar, mas não pode terminar.
31. Ou qual é o rei que, estando para guerrear com outro rei, não se senta primeiro para considerar se com dez mil homens poderá enfrentar o que vem contra ele com vinte mil?
32. De outra maneira, quando o outro ainda está longe, envia-lhe embaixadores para tratar da paz.
33. Assim, pois, qualquer um de vós que não renuncia a tudo o que possui não pode ser meu discípulo.