sábado, 27 de janeiro de 2007

PALAVRA DE DEUS - HOMILIA DO VIGÉSIMO TERCEIRO DOMINGO DO TEMPO COMUM

Mc 7,31-37


O homem é ser com necessidade de se relacionar quer com as pessoas ou com o mundo que o cerca.A relação, no entanto, e mediada por elementos da nossa corporeidade, como a palavra.Em muitas situações o desafio de comunicar, uma das bases da relação, não esta na rejeição dos conteúdos, mas na incapacidade de receber e entender a mensagem. O Evangelho deste vigésimo terceiro domingo do tempo comum nos propõe entrar no dinamismo da mensagem do Reino. A Palavra de Deus entrado na história humana se revela plena de intensidade dotada de um espírito empreendedor, diligente, capaz de abolir obstáculos e limites.
"Saindo de novo do território de Tiro, seguindo em direção do mar da Galileia, passando por Sidônia e atravessando a Decápole..." Jesus segue um caminho curioso, ele parece insistir em permanecer em terras pagãs.Pode-se dizer que ele não concentra nenhuma atenção nas fronteiras, que dividiam Israel e o mundo gentílico.O anuncio da Boa Nova, proposto no início do Evangelho não conhece os limites artificiais. Se na pratica havia uma separação entre Israel e as nações, Marcos apresenta uma visão de que o Evangelho não se retrai diante dos elementos de distinção. No começo de sua obra o Evangelista expõe veladamente seu intuito: "Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus". A palavra "arque"` não aponta somente para o inicio do livro mas para o começo,princípio da divulgação da Boa Nova de Jesus.Tal como no Gênesis o - no princípio- denota o começo de uma ação de criar, em Marcos ele marca um ponto de partida da ação de Deus em Jesus Cristo. Há um ponto de partida, não de chegada, não há barreiras ou fronteiras para o Evangelho, ele ignora qualquer oposição estabelecida entre Israel e as Nações. Neste sentido Jesus resgata a missão de Israel, e conseqüentemente da Igreja, ser testemunha ente os povos, arautos: "Conforme está escrito no profeta Isaías: "eis que envio o meu mensageiro diante de ti, a fim de preparar o teu caminho; voz que clama no deserto: preparai o caminho do Senhor, tornai restas suas veredas." Prepara o caminho, tornar retas as veredas, abolir os obstáculos, anular as depressões, as marcas de separação, eis o encargo do depositário do chamado soberano de Deus.No livro de Isaías esta mensagem aponta para uma saída da Babilônia em direção a Jerusalém. Em Marcos pode se ver, nesta voz de João, o percussor, o chamado para a partir de Jerusalém levar a Boa Nova às nações abolindo os obstáculos, fato concretizado em Jesus.
"Trouxeram um surdo que gaguejava..." Na nossa realidade cristã, poderíamos dizer que o sentido sobressalente deveria ser a visão uma vez que o mistério central da fé cristã seja a escarnação. Para Israel o sentido religioso por excelência e a audição. A profissão de fé diária de Israel diz: "Ouve, Ó Israel: o Senhor nosso Deus é o único Senhor! Portanto, amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua força. Que estas palavras que hoje te ordeno estejam em teu coração! Tu as inculcarás aos teus filhos, e delas falarás...". A Palavra ouve (Shemá) tornou-se sinônimo de todo o conjunto, evidenciando o valor do ouvir um Deus que se revelou ao falar. O próprio Jesus utiliza-se, em Marcos, da profissão de Israel para discorrer sobre o maior mandamento: "Jesus respondeu: O primeiro mandamento é: ouve o Israel" (Mc 12,29) Já no inicio de sua obra Marcos, em seqüência à fé de Israel, evidencia em seu evangelho o valor do ouvir (uma voz clama).Mas como ouvir a voz do Reino quando se é surdo. E mais, como "inculcar-las aos filhos e delas falar" quando se é gago. Inculcar e ensinar representam a mesma idéia, que os sábios de Israel comentaram da seguinte forma: "É uma expressão de agudeza, que os ditos da Torá estejam aguçados na sua boca, de forma que se alguém te perguntar algo, você não necessite gaguejar para responder-lhe sem hesitar (Sifrei, Tratado Talmúdico Kidushim 30). Surdo e gago, sem possibilidade de comunicar o bem de fé mais precioso. As nações sofrem de um mal, susceptível de cura, a dificuldade de comunicar a Palavra do Reino, porém abolidas as fronteiras poderão também dizer:" o que era desde o principio, o que ouvimos, o que vimos com nossos olhos...vo-lo anunciamos"(1Jo 1,1-2).
"Levou o a sós para longe da multidão..." Esta atitude pode denotar um conceito importante para as Escrituras. Israel é um povo separado, Arão foi separado para servir ao altar. Separa alguém da multidão e dar um traço de distinção, conceder um outro status, uma missão."Colocou os dedos nas orelhas dele e, com saliva, tocou-lhe a língua".Colocar os dedos ou o conjunto deles é praticamente falar do uso das mãos. Usar saliva é o mesmo que umedecer com algo proveniente da boca. "Levantou os olhos para o céu". Todo este conjunto de elementos pode apontar para a idéia de criação.O homem é recriado pela ação de Jesus, adquire um novo ser. De surdo e gago, tona se "imediatamente" alguém que ouve e fala corretamente, ou seja, capacitado ao anuncio do Reino.
"Proibiu de contar o que acontecera". Não se deve pensar que este momento como suficiente para entender toda a realidade de Jesus e do Reino.Há uma abertura que persiste. EFFATHA abrir-se para a ação do Reino exige uma atitude de seguimento, de não imposição de um limite. Os limites que Jesus superou apontam para o dinamismo do Reino que deve ser mantido pelo homem.Divulgar este feito é possibilidade de esquecer a totalidade, num processo em andamento para a morte e ressurreição, quando se compreenderá realmente quem é Jesus.Deve-se, no entanto, notar que não foi o beneficiário da ação de Jesus que assumiu esta postura de proclamação do fato, mas a multidão.Atitude contraria àquela exigida de Jesus. Aqui se expressa o limite da compreensão da turba, que vê o imediato como o total.Expressão de que não somente o indivíduo sofreu uma mudança, mesmo a multidão foi atingida pela ação de Jesus, ainda sem tudo compreender. Também, se pode vislumbrar que não seja a multidão que ira perceber a realidade de quem seja Jesus, mas apenas os discípulos.
"Maravilhavam-se sobremaneira, dizendo: Ele faz tudo bem". Tal frase pode ser parte de um esforço de relacionar este momento com a idéia de nova criação e conseqüentemente um retorno às imagens livro do Gênesis, usadas no texto. A expansão do reino entre as nações quer estabelecer uma nova maneira de ser homem, o "homem novo".
A tradição da Igreja inseriu o rito da Éfeta na liturgia batismal.De uma certa maneira o cristão é alguém que ganha condição de bem comunicar.Comunicar uma Palavra que o supera, mas que ao mesmo tempo lhe é familiar: "pela revelação divina quis Deus manifestar-se e comunicar-se a si mesmo" (DV 6).Ocupar-se em conhecer a Palavra de Deus e esforço para conhecer o próprio Deus manifesto pela revelação bíblica. Para a eficiência deste comunicar deve-se direcionar o olhar para tudo que ainda representa barreira a esta Palavra como desafio a ser superado.Alargar o alcance do Reino, por meio da Palavra, é vocação inerente ao Batismo, missão fundamental de todo cristãos.

Pe. Valdenício Antonio