sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Pe. Antonio Vieira - Sermão I - Maria Rosa Mística


Quando Cristo, Senhor nosso, ajuntou ao número dos apóstolos o dos setenta e dois discípulos, disse-lhes assim: Messis quidem multa, operarii autem pauci. Rogate ergo dominum messis ut mittat operarios in messem suam (Lc 10, 2): A seara que vos mando cultivar é muita, mas os operários ou lavradores são poucos; pelo que rogai ao Senhor da seara que mande mais operários à sua seara, ou à seara sua: In messem suam. - Este suam e aquele ergo parece que não fazem boa conseqüência. Se Cristo é o Senhor da seara: Dominum messis: se a seara é sua: In messem suam - como nos manda a nós que lhe roguemos e peçamos a ele que mande operários? Não é o mesmo Senhor aquele vigilante pai de famílias que madrugou muito cedo, e em todas as horas do dia saiu em pessoa à praça a chamar e alugar operários para a vinha, não por outra razão, senão porque era sua: Ite et vos in vineam meam ? - Pois, se a cultura e a colheita da sua seara está à conta da sua providência e do seu cuidado, por que a encomenda às nossas orações: Rogate Dominum messis? - Se a seara fora nossa, então nos incumbia a nós rogar e pedir a Deus nos desse os meios para ela; mas que, sendo a seara de Deus, nós hajamos de rogar ao mesmo Deus que se lembre da cultura da sua seara: Ut mittat operarios in messem suam? - Bem se mostra que o mesmo autor do Padre-nosso é o mestre desta doutrina. Manda que, sendo a seara de Deus, e não nossa, sejamos nós os que roguemos por ela, porque a oração perfeita e perfeitíssima não é pedirmos nós para nós, é pedirmos a Deus para Deus. Pedirmos nós para nós é procurar os nossos interesses; pedirmos a Deus para Deus é solicitar a sua glória. E isto é o que fazemos nas primeiras três petições do Rosário. Se dizemos sanctificetur, para glória de Deus: nomen tuum; se dizemos adveniat, para glória de Deus outra vez: regnum tuum; se dizemos fiat, para glória de Deus do mesmo modo: voluntas tua.


(Sermão I - Maria Rosa Mística)

Nenhum comentário: